• Gilson Fais

Uká: o kwandu indomável


O kwandu indomável

A pedido de Jose Op, escrevi o prefácio de seu primeiro romance ficcional. Trata-se de uma obra de notável qualidade. Para os amantes da literatura, está disponível na Amazon para aquisição diretamente em seu kindle ou tablet. Leiam e divirtam-se!

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A presente obra transcende o circuito de uma operação classificatória. O rótulo de literatura etnográfica não é capaz de capturá-la. Não se reduz a uma peculiar história sobre o cotidiano dos povos da floresta. Trata-se de uma vertiginosa epopéia envolvendo homens e mulheres do tempo de Te'Nhumdé-Porá: a mítica era dos seres humanos originais. Paradoxalmente, é desse tempo e espaço míticos que se resgata a memória atual de dois povos entrelaçados: os Tuku-Nah-Kah e os Kau-Puri. Os dramas e dilemas de seus integrantes serão apresentados de forma não linear, impactando o sentido usual que empregamos aos termos início, meio e fim. Espaço e tempo não são apresentados como realidades absolutas e a geometria do ser humano é relativizada.

Explora-se aqui uma antropologia que já foi anunciada por grandes mestres, do Ocidente ao Oriente. Nela, o homem apresenta um aspecto dual: um corpo físico e um corpo energético, este último conhecido entre os povos aqui retratados pelo termo rupigwara. Entenda-se, no entanto, tal dualidade como aparente. O que dá unidade a esse duo é a consciência. Aqui, o conceito de consciência não se confunde com aquilo de que tratam os neurologistas. A esse novo entendimento adiciona-se uma radical operacionalidade que promete desfazer os erros de interpretação da realidade que encerrou a humanidade num labirinto de imagens desconexas.

No curso da narrativa, a ideia de uma realidade indissociável de processos temporais se dissipa, impondo uma necessidade: há ações fora do tempo; há localidade fora da geometria. E, com isso, um modo de viver fora do tempo, num "tempo alto", adquire uma importância determinante para a iniciação nos mistérios da consciência. Nesse meio existencial atemporal, a consciência, entendida como um tipo de energia, pode ser alinhada a outras formas de energia para fins de percepção, e com ela, um modo de cognição inconcebível se põe à disposição dos seres humanos. Aprender a operar a consciência assim entendida, assemelha-se a conduzir uma embarcação por um oceano desconhecido e ilimitado; e sua condução precisa exige nada menos que a maestria, pois muitos são os perigos contidos num universo regido pelo princípio da depredação. Sem piedade, somos expostos aos aspectos desconhecidos e perturbadores da natureza humana que não podem ser separados da própria realidade.

José Op sugere que isso tudo não representa novidade alguma para uma pequena parte da humanidade, além daquela que busca retratar. Afinal, tanto a filosofia perene das antigas tradições quanto as atuais reflexões de eminentes filósofos e físicos, convergem no sentido de dar preeminência à consciência ao tratar das dificílimas questões relativas à existência objetiva do Universo. Mas a internalização dos conceitos que traz exige o enfrentamento da paradoxalidade inerente ao aparelho sensório-perceptivo humano, pois mesmo podendo libertá-lo, o mantém aprisionado. E é nesse momento que o leitor inevitavelmente oscilará entre a incredulidade e a vertigem; e, nesse balanço, poderá ficar imobilizado numa rede tecida com cipós.

Modestamente, José Op revela ter recebido a tarefa de conectar esse passado mítico ao momento presente por meio do registro e divulgação do que pretende ser apenas uma narrativa etnográfica. Como texto literário, é preciso observar que na técnica adotada para composição do fluxo narratológico, José Op alterna, por necessidade, mais que por estilo, o discurso dos falantes nativos, com suas ricas expressões originais, e o falar dos brasileiros comuns do Oiapoque ao Chuí. É nítida sua falta de ambição literária. E, talvez por isso mesmo, tenha reunido algo notável: há energia vital nesta obra. Há todos os ingredientes de uma respeitável tragédia universal. Mas José Op não nos entrega facilmente esse tesouro humano: desafia o leitor a percorrer uma trilha sinuosa que atravessa tempos e espaços diversos, começando neste modesto volume preliminar a uma vasta produção realizada em segredo e sob tensão. Na voz de Uká, o autor adverte: uma vez que se entra na floresta, o destino do visitante se prende aos interesses dela. E assim é nesta obra: uma vez iniciada a leitura, ela impactará o futuro.

Seria, portanto, responsabilidade do leitor compreender o alcance desse esforço e suportar as consequências decorrentes. Digo suportar, por entender devastadora a sensação de que talvez tenhamos - todos nós seres humanos - passado toda vida circundando vazios, profundamente mergulhados em uma ignorância sem fim a respeito da natureza de nossa percepção e sua conexão com os fundamentos da realidade. E parece evidente que um equívoco na percepção da realidade denuncia um equivoco de auto-percepção. Daí a relevância de considerarmos seriamente a perspectiva apontada por essa antropologia de matriz energética. Afinal, o duplo energético do corpo humano - designado rupigwara entre os povos da floresta - traz com ele uma nova cognição e, com ela, todo um sistema de interpretação e comunicação que reconstrói em bases radicalmente novas o sentido de ser e de se estar no mundo.

José Op resgata na floresta o vínculo do ser a um substrato de caráter puramente energético onde a consciência é plena fora do tempo e do espaço. É como se a consciência se espraiasse num contínuo expresso pela função de onda de Schrödinger, libertando-se dos condicionantes espaço-temporais, para colapsar por um milagroso ato de vontade num momento presente definido por ela mesma. O autor não diz, mas o seu achado seria próprio a uma arqueologia da espiritualidade universal. Uma lógica da energia é requerida, mas tudo o que se aproxima de uma descrição racional submerge diante da presença incontestável de uma realidade superior alheia as regras ordinárias da causalidade. Isso não é descobrir um novo mundo, é redescobrir o velho homem: Uká.

A noção de localidade associada a conceitos de espaço e tempo se diluem naquilo que se descreverá por "alinhamento" da consciência. E é esse alinhamento de consciências que suportará a ideia de comunicação como uma espécie transcendente de comunhão universal: conhecimento irredutível, saber sem dúvidas, realidade completa e plena experimentada fisicamente. E foi alinhando-se às emanações conscienciais dos entes vegetais que os homens remanescentes, herdeiros dos povos da floresta, tomaram conhecimento de que uma mistura muito específica de plantas seria a chave para despertar uma cognição potencialmente capaz de libertá-los das sedutoras certezas ilusórias que abundam nos meios mais insuspeitos. Literalmente: as plantas lhes disseram o que fazer para obter a mistura. Mas Uká nos revela que esse conhecimento nunca esteve adormecido entre os seus. E descreve o fato: as plantas se comunicam inteligivelmente por meio de seu próprio rupigwara, exigindo-se tão somente um alinhamento de consciências. E José Op simplesmente confirma essa descoberta notável como algo banal entre os povos da floresta. Só se vive o que é verdadeiro.

A partir de agora, sobre o autor, é preciso dizer que se expõe corajosamente à hostilidade da objeção incrédula. O que ele nos traz, na vivência de Uká, o indomável kwandu, é uma história da redescoberta da humanidade original entre aqueles remanescentes que se presentificam como povos da floresta. Mergulhar nessa história com o coração, o mesmo de que tratam os cardiologistas, exigirá do leitor um inspirar e exalar cada vez mais profundos até que a própria narrativa o eleve à condição de partícipe de uma história extraordinária, profunda, autêntica e terrivelmente verdadeira.

Extraordinária, porque Uká, o indomável kwandu, nome que se dá ao gavião típico da região amazônica retratada, impõe uma visão exuberante da realidade vivida cotidianamente pelo seu povo, os Tuku-Nah-Kah, irmanados pela dor e o amor, ao povo Kau Puri. De um enlace improvável, fez-se a síntese de técnicas necessárias para vencer uma espécie de sombra que tomou a luz da humanidade para si própria, ardilosamente impondo sua projeção de realidade sobre os homens, confundindo-os quanto à sua própria natureza, substituída por um simulacro de ser, desorientado, perdido, vazio. É possível que essa revelação perturbe o leitor mais sensível; contudo, é com essa sensibilidade que ele deverá encontrar sua própria trilha para seguir na escuridão de uma ignorância auto-imposta ou retornar à luz para festejar o encontro consigo mesmo.

Profunda, porque Uká e seu povo são um só na grandeza vertiginosa de sua indomabilidade. E, pela imanente transcendência das coisas profundas, todos descobrimos em nós um análogo desse kwandu aguardando o próprio despertar. E, no curso da história narrada, somos implacavelmente atingidos por informações sobre a natureza humana, ou melhor, a natureza de todos os seres vivos; informações imemoriais que compõem o conhecimento vivo dos povos plantados sobre a Terra. De fato, o autor aprofundará no leitor a sensação de que tudo o que ouvimos sobre o ser humano e sua história na Terra é apenas desinformação. E assim começamos a vislumbrar uma força terrível impondo a escuridão aos habitantes humanos deste planeta. Trata-se de uma força viva que está literalmente parasitando a mente de cada homem e mulher deste mundo, insuflando-lhes percepções contraditórias para que se devorem uns aos outros. É verdade que isso não afasta a responsabilidade por nossos atos, mas aponta para um saber pressentido por muitos de todos os cantos e tempos: conheça-se e a verdade o libertará; se sobreviver a ela, acrescente-se.

Autêntica, pois a vivência de Uká transcende o espaço circunscrito pela floresta, revelando um ente universal em sua singularidade, suscetível, como todos nós, às flutuações das emanações energéticas da fonte universal. Não é um herói da floresta, apenas um homem comum: tem família, amigos e um povo para integrar-se numa unidade transcendente. Uká é ele mesmo se descobrindo um universo inteiro, surpreendente, imperscrutável em seu poderoso e infinito mistério. Traduzindo um drama existencial universal, Uká percorre o traçado de sua história descolada das malhas causais, revelando aspectos da realidade cuja descrição a aproxima do novo imaginário legado pelos fundamentos da teoria quântica, uma das maiores conquistas intelectuais da humanidade. E, com isso, começa a nos libertar da cientificidade degradada pelos vícios da racionalidade cartesiana que reduziu a humanidade a um pensamento aprisionado em um redemoinho de clareira.

E, finalmente, é terrivelmente verdadeira porque Uká resgata em nós a realidade de um tempo esquecido, quando todos sabíamos ser fluxos existenciais completamente livres. Com o pleno domínio da consciência estávamos habilitados a vivenciar um tempo que não se submete à passagem, e que se traduz como uma permanência absoluta, desligada que é das conexões de causa e efeito. O "tempo alto", fluxo paradoxalmente fixo, revela o espaço sem extensão, sem geometria. Uká nos ensina que é a partir do alinhamento da consciência que nos deslocamos para o "tempo alto", onde se conhece um objeto - no limite do irredutível garantido pelo princípio quântico da incerteza - simplesmente focando nele a atenção de uma cognição superior. Sem possibilidade de equívoco. E, nesse ponto, somos levados a olhar para dentro de nós, movidos pela certeza de que há um vínculo indestrutível nos emaranhando à teia cósmica da vida. E, nessa teia, todas as demais naturezas parecem aguardar o nosso retorno. E mais uma vez somos relembrados pelas vozes da floresta: seja qual for a trilha tomada, estamos sempre voltando para casa. E nossa casa é o universo inteiro, uma floresta de luzes.

Recuperando o fôlego, sabemos que o exercício literário impõe normas de construção de narrativas, pois também está presente a pretensão de se registrar uma boa história. Com sensibilidade, José Op promove uma narrativa que serpenteia num fluxo descontínuo, o que exige dedicada atenção do leitor para que não lhe escape detalhes valiosos. E há muitas sutilezas distribuídas engenhosamente como armadilhas para nossa atenção: ao leitor caberá identificá-las. As personagens são intensas e compõem uma paisagem humana e sobre-humana que se desdobra entre a riqueza da interação caleidoscópica com a rainha de todas as florestas, e a revelação surpreendente de que há aspectos dinâmicos da consciência humana que nos habilita a interagir com o tempo e o espaço de maneira a vivificar em qualquer um de nós a presença do transcendente, dispensadas as iniciações artificialmente tormentosas.

A descrição da realidade traçada pelos sentidos humanos apoiados nessa nova antropologia se aproxima daquela que os físicos quânticos vêm tentando desvendar e que há muito foi resolvida pelos grandes mestres da metafísica. O que nos sugere que a cognição praticada pelos homens de tempos imemoriais, cujos remanescentes vivos inspiram os personagens da saga de Uká, não é a mesma que praticamos hoje. E desvendar esse mistério, recuperando a potência de uma cognição que atinge o irredutível em toda sua inteireza indivisível é o que promete José Op com surpreendente audácia e uma pitada de alucinação criativa.

Mas não é só a natureza da consciência humana que se explora em um nível impensável para a cognição ordinária. Explora-se a extensão da manifestação da consciência entre os próprios entes vegetais, desvelando-se uma inumerabilidade insuspeita de seres tão plenos e diversos quanto inconcebíveis para a racionalidade limitada por sua comunicabilidade. E, aqui, o homem não mais se destaca por uma solidão cósmica angustiante, mas por um imanente entrelaçamento a um sem número de interlocutores hábeis a testemunhar a infinita riqueza da expressão da vida. E por testemunho, não se quer dizer mera presença, mas interação comunicativa inteligível: a família não humana da humanidade agora está posta diante dela, aguardando-a.

Se os homens de Uká anunciam que conversam habitualmente com as plantas, é porque, de fato, o fazem. E não é pela forma artificialmente simbólica com que se registra a presente epopéia, mas numa linguagem universal de matriz energética, redescoberta nos fundamentos de uma cognição plena e transcendente envolvendo todas as formas de vida de substrato orgânico e também inorgânico. A existência se confunde com a comunicação. E o conhecimento deixa de ser um resíduo interpretado, mas um ato de respiração. Há, no ser humano, um ponto da não-dúvida: uma condição particular da consciência em que o irredutível é posto diante dele, não como objeto alheio, mas como integrante de sua condição existencial. E ele só precisa ver o objeto em um estado de silêncio inconcebivelmente comunicante. E o medo e a euforia se fundem, afinal, para confirmar que o conhecimento alimenta a dor, mas não se deixa aprisionar por ela.

Estratégico, José Op vai nos aproximando sutil e implacavelmente de um mistério de grande força atrativa. Uma vez rompido um limiar, a atenção de milhões de leitores poderia voltar-se para esse desafio superior de despertar a cognição do corpo energético e provocar uma reviravolta sem precedentes na estrutura do sistema sensório-perceptivo de nossa espécie. E isso nos força a perguntar: seria possível realinhar todas as consciências para um enfrentamento direto da sombra terrível que nos aprisionou num sistema de interpretações que nos esvazia? Afinal, se toda humanidade permanece subjugada pela força da escuridão, vencê-la para uma repentina transição à luz é uma possibilidade. Nos atos de Uká, o autor sugere isso.

Mas os olhos habituados às trevas suportaria a luz? Escaparia à escravidão o liberto repentinamente desprovido de sua base estrutural cotidiana sob a qual elaborou o integral repertório de si mesmo? Não são poucas as perguntas que nos vêm à mente na leitura desse singular trabalho. Mas agora podemos dizer: ó homem sem visão, a resposta está em todo lugar por ser parte integrante de todo seu ser. Não temer a si mesmo é o seu maior desafio.

José Op é um magnífico provocador. Com a pequena clareira que abre na realidade dos povos da floresta, impõe uma certeza: urge despertarmos, pois o fogo interior precisa ser mantido alto para que a luz do sol de dentro não se transmute em sombra.

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